quarta-feira, 23 de março de 2011

Apesar do apesar

Apesar de você, amanhã há de ter sol
Cantando suave debaixo das cortinas
Avançando aos poucos os cantos das esquinas
Fazendo pouco caso da vida, e sua ironia
Apesar de você, há de ter um novo dia

Há de ter a moça, há também aquele rapaz
Há de ter amor, outros tantos belos casais
Aquele cachorro, o sorvete, a criança
Brisa, pássaro, a flor, sua dança
Aquele motivo de todo entardecer
Apesar de você, amanhã há de ser

Há de ser sereno, serenata, serei tua
Serei de outras noites, sereia da meia-lua
Seria fogo aceso, seria carne nua
Seria ainda será, talvez na outra rua
Apesar do apesar, uivam ainda mentes sãs
Se não hoje, amanhã, ou depois
dos amanhãs

Meu dia tão calmo, apesar da tua chuva
No telhado tão falho, goteira oportuna
Pinga no corpo, no meu copo, nossa saudade
Começa de manso e termina tempestade

Atrás das tuas nuvens, meus raios de verdade
Apesar da tua enchente, ontem há de ser tarde
Apesar do nosso tempo, com o tempo há de ser pó
Há de ser poeira que segue por si só
E amanhece outra vez - sorrio, surpresa
Se ontem, mesa vazia
Hoje há de ser sobremesa

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